O
que é?
O alcoolismo é o conjunto de problemas relacionados ao consumo excessivo e
prolongado do álcool; é entendido como o vício de ingestão excessiva e
regular de bebidas alcoólicas, e todas as conseqüências decorrentes. O
alcoolismo é, portanto, um conjunto de diagnósticos. Dentro do alcoolismo
existe a dependência, a abstinência, o abuso (uso excessivo, porém não
continuado), intoxicação por álcool (embriaguez). Síndromes amnéstica
(perdas restritas de memória), demencial, alucinatória, delirante, de humor.
Distúrbios de ansiedade, sexuais, do sono e distúrbios inespecíficos. .
Assim o alcoolismo é um termo genérico que indica algum problema, mas
medicamente para maior precisão, é necessário apontar qual ou quais distúrbios
estão presentes, pois geralmente há mais de um.
O fenômeno
da Dependência
O comportamento de repetição obedece a dois mecanismos básicos não patológicos:
o reforço positivo e o reforço negativo. O reforço positivo refere-se ao
comportamento de busca do prazer: quando algo é agradável a pessoa busca os
mesmos estímulos para obter a mesma satisfação. O reforço negativo refere-se
ao comportamento de evitação de dor ou desprazer. Quando algo é desagradável
a pessoa procura os mesmos meios para evitar a dor ou desprazer, causados numa
dada circunstância. A fixação de uma pessoa no comportamento de busca do álcool,
obedece a esses dois mecanismos acima apresentados. No começo a busca é pelo
prazer que a bebida proporciona. Depois de um período, quando a pessoa não
alcança mais o prazer anteriormente obtido, não consegue mais parar porque
sempre que isso é tentado surgem os sintomas desagradáveis da abstinência, e
para evitá-los a pessoa mantém o uso do álcool. Os reforços positivo e
negativo são mecanismos ou recursos normais que permitem às pessoas se
adaptarem ao seu ambiente.
Tolerância
e Dependência
A tolerância e a dependência ao álcool são dois eventos distintos e
indissociáveis. A tolerância é a necessidade de doses maiores de álcool para
a manutenção do efeito de embriaguez obtido nas primeiras doses. Se no começo
uma dose de uísque era suficiente para uma leve sensação de tranqüilidade,
depois de duas semanas (por exemplo) são necessárias duas doses para o mesmo
efeito. Nessa situação se diz que o indivíduo está desenvolvendo tolerância
ao álcool. Normalmente, à medida que se eleva a dose da bebida alcoólica para
se contornar a tolerância, ela volta em doses cada vez mais altas. Aos poucos,
cinco doses de uísque podem se tornar inócuas para o indivíduo que antes se
embriagava com uma dose. Na prática não se observa uma total tolerância, mas
de forma parcial. Um indivíduo que antes se embriagava com uma dose de uísque
e passa a ter uma leve embriaguez com três doses está tolerante apesar de ter
algum grau de embriaguez. O alcoólatra não pode dizer que não está tolerante
ao álcool por apresentar sistematicamente um certo grau de embriaguez. O critério
não é a ausência ou presença de embriaguez, mas a perda relativa do efeito
da bebida. A tolerância ocorre antes da dependência. Os primeiros indícios de
tolerância não significam, necessariamente, dependência, mas é o sinal claro
de que a dependência não está longe. A dependência é simultânea à tolerância.
A dependência será tanto mais intensa quanto mais intenso for o grau de tolerância
ao álcool. Dizemos que a pessoa tornou-se dependente do álcool quando ela não
tem mais forças por si própria de interromper ou diminuir o uso do álcool.
O alcoólatra de "primeira viagem" sempre tem a impressão de que pode
parar quando quiser e afirma: "quando eu quiser, eu paro". Essa frase
geralmente encobre o alcoolismo incipiente e resistente; resistente porque o
paciente nega qualquer problema relacionado ao álcool, mesmo que os outros não
acreditem, ele próprio acredita na ilusão que criou. A negação do próprio
alcoolismo, quando ele não é evidente ou está começando, é uma forma de
defesa da auto-imagem (aquilo que a pessoa pensa de si mesma). O alcoolismo,
como qualquer diagnóstico psicológico, é estigmatizante. Fazer com que uma
pessoa reconheça o próprio estado de dependência alcoólica, é exigir dela
uma forte quebra da auto-imagem e conseqüentemente da auto-estima. Com a
auto-estima enfraquecida a pessoa já não tem a mesma disposição para viver
e, portanto, lutar contra a própria doença. É uma situação paradoxal para a
qual não se obteve uma solução satisfatória. Dependerá da arte de conduzir
cada caso particularmente, dependerá da habilidade de cada profissional.
Aspectos
Gerais do Alcoolismo
A identificação precoce do alcoolismo geralmente é prejudicada pela negação
dos pacientes quanto a sua condição de alcoólatras. Além disso, nos estágios
iniciais é mais difícil fazer o diagnóstico, pois os limites entre o uso
"social" e a dependência nem sempre são claros. Quando o diagnóstico
é evidente e o paciente concorda em se tratar é porque já se passou muito
tempo, e diversos prejuízos foram sofridos. É mais difícil de se reverter o
processo. Como a maioria dos diagnósticos mentais, o alcoolismo possui um forte
estigma social, e os usuários tendem a evitar esse estigma. Esta defesa natural
para a preservação da auto-estima acaba trazendo atrasos na intervenção
terapêutica. Para se iniciar um tratamento para o alcoolismo é necessário que
o paciente preserve em níveis elevados sua auto-estima sem, contudo, negar sua
condição de alcoólatra, fato muito difícil de se conseguir na prática. O
profissional deve estar atento a qualquer modificação do comportamento dos
pacientes no seguinte sentido: falta de diálogo com o cônjuge, freqüentes
explosões temperamentais com manifestação de raiva, atitudes hostis, perda do
interesse na relação conjugal. O Álcool pode ser procurado tanto para ficar
sexualmente desinibido como para evitar a vida sexual. No trabalho os colegas
podem notar um comportamento mais irritável do que o habitual, atrasos e mesmo
faltas. Acidentes de carro passam a acontecer. Quando essas situações
acontecem é sinal de que o indivíduo já perdeu o controle da bebida: pode
estar travando uma luta solitária para diminuir o consumo do álcool, mas
geralmente as iniciativas pessoais resultam em fracassos. As manifestações
corporais costumam começar por vômitos pela manhã, dores abdominais, diarréia,
gastrites, aumento do tamanho do fígado. Pequenos acidentes que provocam contusões,
e outros tipos de ferimentos se tornam mais freqüentes, bem como esquecimentos
mais intensos do que os lapsos que ocorrem naturalmente com qualquer um,
envolvendo obrigações e deveres sociais e trabalhistas. A susceptibilidade a
infecções aumenta e dependendo da predisposição de cada um, podem surgir
crises convulsivas. Nos casos de dúvidas quanto ao diagnóstico, deve-se sempre
avaliar incidências familiares de alcoolismo porque se sabe que a carga genética
predispõe ao alcoolismo. É muito mais comum do que se imagina a coexistência
de alcoolismo com outros problemas psicológicos prévios ou mesmo precipitante.
Os transtornos de ansiedade, depressão e insônia podem levar ao alcoolismo.
Tratando-se a base do problema muitas vezes se resolve o alcoolismo. Já os
transtornos de personalidade tornam o tratamento mais difícil e prejudicam a
obtenção de sucesso.
Tratamento
do Alcoolismo
O alcoolismo, essencialmente, é o desejo incontrolável de consumir bebidas
alcoólicas numa quantidade prejudicial ao bebedor. O núcleo da doença é o
desejo pelo álcool; há tempos isto é aceito, mas nunca se obteve uma substância
psicoativa que inibisse tal desejo. O tratamento do alcoolismo não deve ser
confundido com o tratamento da abstinência alcoólica. Como o organismo
incorpora literalmente o álcool ao seu metabolismo, a interrupção da ingestão
de álcool faz com que o corpo se ressinta: a isto chamamos abstinência que,
dependendo, do tempo e da quantidade de álcool consumidos pode causar sérios
problemas e até a morte nos casos não tratados. Fatos como esses servem para
que os clínicos e os não-alcoólatras saibam o quanto é forte a inclinação
para o álcool sofrida pelos alcoólatras, mais forte que a própria ameaça de
morte. Podemos fazer uma analogia para entender essa evolução. O paciente tem
que fazer um esforço semelhante ao motorista que tenta segurar um veículo
ladeira abaixo, pondo-se à frente deste, tentando impedir que o automóvel
deslanche, atropelando o próprio motorista. Com as novas tecnicasde tratamento
pela hipnose por exemplo, o motorista está dentro do carro apertando o pedal do
freio até que o carro chegue no fim da ladeira. Em ambos os casos, é possível
chegar ao fim da ladeira (controle do alcoolismo). Numa o esforço é enorme
causando grande percentagem de fracassos; noutro o esforço é pequeno,
permitindo grande adesão ao tratamento.
Problemas
Clínicos
Diversos são os problemas causados pela bebida alcoólica pesada e prolongada.
Fugiria ao nosso objetivo entrar em detalhes a esse respeito, por isso
abordaremos o tema superficialmente.
Sistema Nervoso - Amnésias nos períodos de embriaguez acontecem em 30 a 40%
das pessoas no fim da adolescência e início da terceira década de vida:
provavelmente o álcool inibe algum dos sistemas de memória impedindo que a
pessoa se recorde de fatos ocorridos durante o período de embriaguez. Induz a
sonolência, mas o sono sob efeito do álcool não é natural, tendo sua
estrutura registrada no eletroencefalograma alterado. Entre 5 e 15% dos alcoólatras
apresentam neuropatia periférica. Este problema consiste num permanente estado
de hipersensibilidade, dormência, formigamento nas mãos, pés ou ambos. Nas síndromes
alcoólicas pode-se encontrar quase todas as patologias psiquiátricas: estados
de euforia patológica, depressões, estados de ansiedade na abstinência, delírios
e alucinações, perda de memória e comportamento desajustado.
Sistema Gastrintestinal - Grande quantidade de álcool ingerida de uma vez pode
levar a inflamação no esôfago e estômago o que pode levar a sangramentos além
de enjôo, vômitos e perda de peso. Esses problemas costumam ser reversíveis,
mas as varizes decorrentes de cirrose hepática além de irreversíveis, são
potencialmente fatais devido ao sangramento de grande volume que pode acarretar.
Pancreatites
agudas e crônicas são comuns nos alcoólatras constituindo-se uma emergência
à parte. A cirrose hepática é um dos problemas mais falados dos alcoólatras;
é um problema irreversível e incompatível com a vida, levando o alcoólatra
lentamente à morte.
Câncer - Os alcoólatras estão 10 vezes mais sujeitos a qualquer forma de câncer
que a população em geral.
Sistema Cardiovascular - Doses elevadas por muito tempo provocam lesões no coração
provocando arritmias e outros problemas como trombos e derrames conseqüentes.
É relativamente comum a ocorrência de um acidente vascular cerebral após a
ingestão de grande quantidade de bebida.
Hormônios Sexuais - O metabolismo do álcool afeta o balanço dos hormônios
reprodutivos no homem e na mulher. No homem o álcool contribui para lesões
testiculares o que prejudica a produção de testosterona e a síntese de
esperma. Já com cinco dias de uso contínuo de 220 gramas de álcool os efeitos
acima mencionados começam a se manifestar e continua a se aprofundar com a
permanência do álcool. Essa deficiência contribui para a feminilização dos
homens, com o surgimento, por exemplo, de ginecomastia (presença de mamas no
homem).
Hormônios Tireoideanos - Não há evidências de que o alcoolismo afete
diretamente os níveis dos hormônios tireoideanos. Há pacientes alcoólatras
que apresentam alterações tanto para mais como para menos nos níveis desses
hormônios; presume-se que quando isso ocorre seja de forma indireta por afetar
outros sistemas do corpo.
Hormônio do crescimento - Alterações são observadas em indivíduos que
abusam de álcool, mas essas alterações não provocam problemas detectáveis
como inibição do crescimento ou baixa estatura, pelo menos até o momento.
Hormônio Antidiurético - Esse hormônio inibe a perda de água pelos rins, o
álcool inibe esse hormônio: como resultado a pessoa perde mais água que o
habitual, urina mais, o que pode levar a desidratação.
Ociticina - Esse hormônio é responsável pelas contrações do útero no
parto. O álcool tanto pode inibir um parto prematuro como atrapalhar um parto a
termo, podendo tanto ser terapêutico como danoso.
Insulina - O álcool não afeta diretamente os níveis de insulina: quando isso
acontece é por causa de uma possível pancreatite que é outro processo
distinto. A diminuição do açúcar no sangue não se deve a ação do álcool
sobre a insulina ou sobre o glucagon (outro hormônio envolvido no metabolismo
do açúcar).
Gastrina - Este hormônio estimula a secreção de ácido no estômago
preparando-o para a digestão. O principal estímulo para a secreção de
gastrina é a presença de alimentos no estômago, principalmente as proteínas.
É controverso o efeito do álcool sobre a gastrina, alguns pesquisadores dizem
que o álcool não provoca sua liberação, outros dizem que provoca, o que
levaria ao aumento da acidez estomacal. Podem provocar úlceras no aparelho
digestivo.
Recaída
A taxa de recaída (voltar a beber depois de ter se tornado dependente e parado
com o uso de álcool) é muito alta: aproximadamente 90% dos alcoólatras voltam
a beber nos 4 anos seguintes a interrupção, quando nenhum tratamento é feito.
A semelhança com outras formas de dependência como a nicotina, tranqüilizantes,
estimulantes, etc, levam a crer que um há um mecanismo psicológico (cognitivo)
em comum. O dependente que consiga manter-se longe do primeiro gole terá mais
chances de contornar a recaída. O aspecto central da recaída é o chamado
"craving", palavra sem tradução para o português que significa uma
intensa vontade de voltar a consumir uma droga pelo prazer que ela causa. O
craving é a dependência psicológica propriamente dita.
As
mulheres são mais vulneráveis ao álcool que os homens?
Aparentemente as mulheres são mais vulneráveis sim. Elas atingem concentrações
sanguíneas de álcool mais altas com as mesmas doses quando comparadas aos
homens. Parece também que sob a mesma carga de álcool os órgãos das mulheres
são mais prejudicados do que o dos homens. A idade onde se encontra a maior
incidência de alcoolismo feminino está entre 26e 34 anos, principalmente entre
mulheres separadas. Se a separação foi causa ou efeito do alcoolismo isto
ainda não está claro. As conseqüências do alcoolismo sobre os órgãos são
diferentes nas mulheres: elas estão mais sujeitas a cirrose hepática do que o
homem. Alguns estudos mostram que o consumo moderado de álcool diário aumenta
as chances de câncer de mama. Um drink por dia não afeta a incidência desse câncer.
Filhos
de Alcoólatras
Milhões de crianças e adolescentes convivem com algum parente alcoólatra no
Brasil. As estatísticas mostram que eles estarão mais sujeitos a problemas
emocionais e psicológicos do que a população desta faixa etária não exposta
ao problema, o que de forma alguma significa que todos eles serão afetados. Na
verdade 59% não desenvolvem nenhum problema. O primeiro problema que podemos
citar é a baixa auto-estima e auto-imagem com conseqüentes repercussões
negativas sobre o rendimento escolar e demais áreas do funcionamento mental,
inclusive em testes de QI. Esses adolescentes e crianças tendem quando
examinados a subestimarem suas próprias capacidades e qualidades. Outros
problemas comuns em filhos e parentes de alcoólatras são persistência em
mentiras, roubo, conflitos e brigas com colegas, vadiagem e problemas com o colégio.
O
alcoolismo é genético?
Esta pergunta bastante antiga vem sendo mais bem estudada nas últimas décadas
através de estudos com gêmeos, e será mais aprofundada com o projeto genoma.
A influência familiar do alcoolismo é um fato já conhecido e aceito. O que se
pergunta é se o alcoolismo ocorre por influência do convívio ou por influência
genética. Para responder a essa pergunta a melhor maneira é a verificação prática
da influência, o que pode ser feito estudando os filhos dos alcoólatras.
Estudos como esses podem investigar os gêmeos monozigóticos (idênticos) e os
dizigóticos. Constatou-se que quando um dos gêmeos idênticos se torna alcoólatra
o irmão se torna mais freqüentemente alcoólatra do que os irmãos gêmeos não
idênticos. Essa constatação mostra a influência genética real, mas não
explica porque, mesmo tendo os "gens do alcoolismo," uma pessoa não
se torna alcoólatra. Os estudos familiares mostraram que a participação genética
é inegável, mas apenas parcial, os demais fatores que levam ao desenvolvimento
do alcoolismo não estão suficientemente claros.
Problemas Psicológicos Causados pelo Alcoolismo
Abuso
de Álcool
A pessoa que abusa de álcool não é necessariamente alcoólatra, ou seja,
dependente e faz uso continuado. O critério de abuso existe para caracterizar
as pessoas que eventualmente, mas recorrentemente têm problemas por causa dos
exagerados consumos de álcool em curtos períodos de tempo. Critérios: para se
fazer esse diagnóstico é preciso que o paciente esteja tendo problemas com álcool
durante pelo menos 12 meses e ter pelo menos uma das seguintes situações: a)
prejuízos significativos no trabalho, escola ou família como faltas ou negligências
nos cuidados com os filhos. b) exposição a situações potencialmente
perigosas como dirigir ou manipular máquinas perigosas embriagado. c) problemas
legais como desacato a autoridades ou superiores. d) persistência no uso de álcool
apesar do apelo das pessoas próximas em que se interrompa o uso.
Dependência ao Álcool
Para se fazer o diagnóstico de dependência alcoólica é necessário que o usuário
venha tendo problemas decorrentes do uso de álcool durante 12 meses seguidos e
preencher pelo menos 3 dos seguintes critérios: a) apresentar tolerância ao álcool
-- marcante aumento da quantidade ingerida para produção do mesmo efeito
obtido no início ou marcante diminuição dos sintomas de embriaguez ou outros
resultantes do consumo de álcool apesar da continua ingestão de álcool. b)
sinais de abstinência -- após a interrupção do consumo de álcool a pessoa
passa a apresentar os seguintes sinais: sudorese excessiva, aceleração do
pulso (acima de 100), tremores nas mãos, insônia, náuseas e vômitos, agitação
psicomotora, ansiedade, convulsões, alucinações táteis. A reversão desses
sinais com a reintrodução do álcool comprova a abstinência. c) o dependente
de álcool geralmente bebe mais do que planejava beber d) persistente desejo de
voltar a beber ou incapacidade de interromper o uso. e) emprego de muito tempo
para obtenção de bebida ou recuperando-se do efeito. f) persistência na
bebida apesar dos problemas e prejuízos gerados como perda do emprego e das
relações familiares.
Abstinência alcoólica
A síndrome de abstinência constitui-se no conjunto de sinais e sintomas
observado nas pessoas que interrompem o uso de álcool após longo e intenso
uso. As formas mais leves de abstinência se apresentam com tremores, aumento da
sudorese, aceleração do pulso, insônia, náuseas e vômitos, ansiedade depois
de 6 a 48 horas desde a última bebida. A síndrome de abstinência leve não
precisa necessariamente surgir com todos esses sintomas, na maioria das vezes,
inclusive, limita-se aos tremores, insônia e irritabilidade. A síndrome de
abstinência torna-se mais perigosa com o surgimento do delirium tremens. Nesse
estado o paciente apresenta confusão mental, alucinações, convulsões.
Geralmente começa dentro de 48 a 96 horas a partir da ultima dose de bebida.
Dada a potencial gravidade dos casos é recomendável tratar preventivamente
todos os pacientes dependentes de álcool para se evitar que tais síndromes
surjam. Para se fazer o diagnóstico de abstinência, é necessário que o
paciente tenha pelo menos diminuído o volume de ingestão alcoólica, ou seja,
mesmo não interrompendo completamente é possível surgir a abstinência.
Alguns pesquisadores afirmam que as abstinências tornam-se mais graves na
medida em que se repetem, ou seja, um dependente que esteja passando pela quinta
ou sexta abstinência estará sofrendo os sintomas mencionados com mais
intensidade, até que surja um quadro convulsivo ou de delirium tremens. As
primeiras abstinências são menos intensas e perigosas.
O
estresse pode provocar alcoolismo?
O estresse não determina o alcoolismo, mas estudos mostraram que pessoas
submetidas a situações estressantes para as quais não encontra alternativa,
tornam-se mais freqüentemente alcoólatras. O álcool possui efeito relaxante e
tranqüilizante semelhante ao dos ansiolíticos. O problema é que o álcool tem
muito mais efeitos colaterais que os ansiolíticos. Numa situação dessas o uso
de ansiolíticos poderia prevenir o surgimento de alcoolismo. Na verdade o que
se encontra é a vontade de abolir as preocupações com a embriaguez e isso os
ansiolíticos não proporcionam, ou o fazem em doses que levariam ao sono. O
homem quando submetido a estresse tende a procurar não a tranqüilidade, mas o
prazer. Daí que a vida sexualmente promíscua muitas vezes é acompanhada de
abuso de álcool e drogas. O fato de uma pessoa não encontrar uma solução
para seu estresse não significa que a solução não exista. A Logoterapia, por
exemplo, ajuda o paciente a encontrar um significado na sua angústia. Não
suprime a fonte da angústia, mas a torna mais suportável. Quando uma dor
adquire um sentido, torna-se possível contorná-la, continuar a vida com um
sorriso, desde que ela não seja incapacitante. Sob esse aspecto a logoterapia
pode ajudar a vencer o alcoolismo nas suas etapas iniciais, quando ainda não
surgiu dependência química. Uma situação de estresse real que passamos
atualmente é o desemprego. Este problema social é de difícil resolução e
geralmente faz com que as pessoas se ajustem às custas de elevação da tensão
emocional prolongada, que é a mesma coisa de estresse.
Alcoolismo
e desnutrição
As principais funções do processo alimentar são a manutenção da estrutura
corporal e das necessidades energéticas diárias. Uma alimentação equilibrada
proporciona o que precisamos. O álcool é uma substância bastante energética,
em épocas passadas, chegou a ser usado em pacientes após cirurgias para uma
reposição mais rápida da energia perdida na cirurgia. Apesar de altamente calórico
o álcool não é armazenável. Não fossem os efeitos prejudiciais ao longo do
tempo, o álcool seria um excelente meio de perder peso. Para que se possa
entender como o álcool fornece energia e ao mesmo tempo não é armazenável é
necessário entender seu mecanismo metabólico o que não será abordado aqui.
Pelo fato do usuário de álcool possuir suas necessidades energéticas supridas
ele não sente muita ou nenhuma fome, assim não há vontade de comer. A diminuição
da oferta das substâncias (proteínas, açucares, gorduras, vitaminas e
minerais) usadas na constante reconstrução dos tecidos, não interrompe o
processo de destruição natural das células que estão sendo substituídas
constantemente. Assim o corpo do alcoólatra começa a se consumir. Esse
processo leva a desnutrição.
Testes
Neuropsicológicos
Os pacientes alcoólatras confirmados ao se submeterem a testes de inteligência
apresentam 45 a 70% normais. Contudo, esses mesmos ao fazerem testes mais específicos
em determinadas áreas do funcionamento mental, como a capacidade de resolver
problemas, pensamento abstrato, desempenho psicomotor, memória e capacidade de
lidar com novidades, costumam apresentar problemas. Os testes normalmente
representam atividades desempenhadas diariamente e não situações especiais ou
raras. Este resultado mostra que os testes superficiais deixam passar
comprometimentos significativos. Os testes neuropsicológicos são mais
adequados e precisos na medição de capacidades mentais comprometidas pelo álcool.
Tem sido observado também que no cérebro dos alcoólatras ocorrem modificações
na estrutura apresentada nos exames de tomografia ou ressonância, além de
comprometimento na vascularização e nos padrões elétricos. Como esses
achados são recentes, não houve tempo para se estudar a relação entre essas
alterações laboratoriais e os prejuízos psicológicos que eles representam.
Efeitos
do Álcool sobre o Cérebro
Os resultados de exames pos-mortem (necropsia) mostram que pacientes com história
de consumo prolongado e excessivo de álcool têm o cérebro menor, mais leve e
encolhido do que o cérebro de pessoas sem história de alcoolismo. Esses
achados continuam sendo confirmados pelos exames de imagem como a tomografia, a
ressonância magnética e a tomografia por emissão de fótons. O dano físico
direto do álcool sobre o cérebro é um fato já inquestionavelmente
confirmado. A parte do cérebro mais afetada costumam ser o córtex pré-frontal,
a região responsável pelas funções intelectuais superiores como o raciocínio,
capacidade de abstração de conceitos e lógica. Os mesmos estudos que
investigam as imagens do cérebro identificam uma correspondência linear entre
a quantidade de álcool consumida ao longo do tempo e a extensão do dano
cortical. Quanto mais álcool mais dano. Depois do córtex, regiões profundas
seguem na lista de mais acometidas pelo álcool: as áreas envolvidas com a memória
e o cerebelo que é a parte responsável pela coordenação motora.
O
Processo Metabólico do Álcool
Quando o álcool é consumido passa pelo estômago e começa a ser absorvido no
intestino caindo na corrente sanguínea. Ao passar pelo fígado começa a ser
metabolizado, ou seja, a ser transformado em substâncias diferentes do álcool
e que não possuem os seus efeitos. A primeira substancia formada pelo álcool
chama-se acetaldeído, que é depois convertido em acetado por outras enzimas,
essas substâncias assim com o álcool excedente são eliminados pelos rins; as
que eventualmente voltam ao fígado acabam sendo transformadas em água e gás
carbônico expelido pelos pulmões. A passagem do intestino para o sangue se dá
de acordo com a velocidade com que o álcool é ingerido, já o processo de
degradação do álcool pelo fígado obedece a um ritmo fixo podendo ser
ultrapassado pela quantidade consumida. Quando isso acontece temos a intoxicação
pelo álcool, o estado de embriaguez. Isto significa que há muito álcool
circulando e agindo sobre o sistema nervoso além dos outros órgãos. Como a
quantidade de enzimas é regulável, um indivíduo com uso contínuo de álcool
acima das necessidades estará produzindo mais enzimas metabolizadoras do álcool,
tornando-se assim mais "resistente" ao álcool. A presença de
alimentos no intestino lentifica a absorção do álcool. Quanto mais gordura
houver no intestino mais lenta se tornará a absorção do álcool. Apesar do álcool
ser altamente calórico (um grama de álcool tem 7,1 calorias; o açúcar tem
4,5), ele não fornece material estocável; assim a energia oferecida pelo álcool
é utilizada enquanto ele circula ou é perdida. A famosa "barriga de
chop" é dada mais pelos aperitivos que acompanham a bebida.
Consequências
corporais do alcoolismo
À medida que o alcoolismo avança, as repercussões sobre o corpo se agravam.
Os órgãos mais atingidos são: o cérebro, trato digestivo, coração, músculos,
sangue, glândulas hormonais. Como o álcool dissolve o mucus do trato
digestivo, provoca irritação na camada externa de revestimento que pode acabar
provocando sangramentos. A maioria dos casos de pancreatite aguda (75%) são
provocados por alcoolismo. As afecções sobre o fígado podem ir de uma simples
degeneração gordurosa à cirrose que é um processo irreversível e incompatível
com a vida. O desenvolvimento de patologias cardíacas pode levar 10 anos por
abusos de álcool e ao contrário da cirrose pode ser revertida com a interrupção
do vício. Os alcoólatras tornam-se mais susceptíveis a infecções porque
suas células de defesas são em menor número. O álcool interfere diretamente
com a função sexual masculina, com infertilidade por atrofia das células
produtoras de testosterona, e diminuição dos hormônios masculinos. O predomínio
dos hormônios femininos nos alcoólatras do sexo masculino leva ao surgimento
de características físicas femininas como o aumento da mama (ginecomastia). O
álcool pode afetar o desejo sexual e levar a impotência por danos causados nos
nervos ligados a ereção. Nas mulheres o álcool pode afetar a produção
hormonal feminina, levando diminuição da menstruação, infertilidade e
afetando as características sexuais femininas