DORMIR
E SONHAR: NOSSA SAÚDE MENTAL DEPENDE DISSO
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ARI GOMES
Você já se imaginou vivendo para sempre em vigília, 24 horas ininterruptamente? Provavelmente você sentiu até um certo cansaço ao pensar numa resposta para essa pergunta. É óbvio, se não ao menos provável, que a resposta razoável a tal pergunta é, não! Talvez você até goste de imaginar a possibilidade de ampliar o tempo disponível para as suas atividades, o que é bastante compreensível, mas é difícil imaginar que você ou qualquer outra pessoa pense em fazê-lo sem descanso.
O sono é um dos traços comportamentais mais característicos dos seres humanos, e não sem razão. Pesquisas desenvolvidas ao longo das últimas cinco décadas têm demonstrado que a privação de sono implica em inúmeros danos físicos e emocionais, de problemas gástricos ao aumento da irritabilidade, de déficit de atenção ao aparecimento de humores depressivos, de envelhecimento precoce à disfunções sexuais. Resumindo, dormir é bom, necessário e indispensável. O sono é uma maneira do corpo se privar das tensões do dia a dia, descarregando o emocional que tanto atrapalha a termos um descanso real.Mas o que poucos de nós sabemos é que o sono tem hora certa para acontecer. Pelo menos do ponto de vista biológico e psicológico podemos dizer que o sono deve ser usufruído preferencialmente a noite.
E porque devemos dormir à noite? Em primeiro lugar porque estamos biologicamente adaptados para isso. Digamos que ao longo da evolução o corpo humano foi desenvolvendo um mecanismo de auto-regulação, esse mecanismo é conhecido como “relógio biológico”, um “relógio” neuronal que organiza o nosso meio interno e nos coloca em sintonia com o meio externo. Esse relógio localiza-se no núcleo supraquiasmático do cérebro e é sincronizado pela alternância entre claro/escuro que ocorre no meio ambiente. Podemos pensar mais ou menos assim, nos primórdios da vida humana na terra sobreviveram, se reproduziram e passaram seus genes adiante os grupos hominídeos que desenvolveram mecanismos de exposição ao meio e recolhimento que melhor os protegessem das adversidades ambientais.
Imagine-se como um homem/mulher primitivo. Você não possui uma constituição física das mais exuberantes, seus filhotes são muito frágeis e precisam de acompanhamento constante, sua dieta alimentar é maioritariamente raízes e outros frutos de coleta, lá fora há uma dezena de predadores muito mais robustos que você e suas armas são um pedaço de osso e a sua coragem. Venhamos e convenhamos, é muito sábio exercer suas atividades na generosa luz do dia e se recolher a noite quando a escuridão torna-se um disfarce propício para os seus inimigos naturais. Admita, a natureza é sábia, dando a todos os seres a chance de sobreviver...e isso para os outros animais pode significar se alimentar de humanos.
Você é um tipo matutino, vespertino ou indiferente? Tenha você embarcado ou não na minha fantasia pré-histórica, o fato é que o seu organismo começa a se preparar para o repouso tão logo o sol se põe, o seu cérebro reage ao anoitecer liberando hormônios que te induzem ao sono. Da mesma forma quando o sol desponta no horizonte o seu “relógio biológico” faz com que seu cérebro passe a liberar hormônios que o enchem de vigor físico e o preparem para a atividade. Para algumas pessoas esses processos e seus efeitos ocorrem um pouco mais cedo e para outras um pouco mais tarde. Ou seja, é natural que algumas pessoas tendam a dormir e acordar mais cedo e outras a dormir e acordar mais tarde, e ainda outras que alternam entre uma coisa e outra sem muito esforço. É o que os pesquisadores designam respectivamente como indivíduos matutinos, vespertinos e indiferentes.
É possível que você nunca tenha pensado na importância do sono em sua vida, ou qual perfil de “dormidor” é o seu, mas tente imaginar-se trabalhando durante a noite, ou em turnos alternantes. Imagine-se perdendo noites e noites de sono durante anos seguidamente. Você pode ter em mente que a sua função é relevante para a sociedade, você pode ser um profissional de transporte, segurança, energia, saúde....ou você pode ser um profissional da área de supermercado, siderúrgica, entretenimento, enfim, você pode ser alguém que precisa trabalhar, e obra da sociedade humana, o trabalho que você precisa, sabe e/ou deseja fazer é noturno! Justamente quando o seu corpo está pedindo por cama.
Você conseguiria trocar a noite pelo dia? Provavelmente não. Além de adoecer fisicamente, o seu corpo iria chiar e muito, pode ter certeza disso. Você também adoeceria psicologicamente! Por mais noctívago (vespertino) que você seja, você provavelmente não conseguiria reunir um grupo social - abrangente o suficiente para interagir em suas necessidades afetivas e sociais - que quisesse ou conseguisse viver exclusivamente à noite. Por conta de nossa história evolutiva somos essencialmente seres diurnos e organizamos nossa vida social assim: atividades durante o dia e repouso a noite. Quase que a totalidade das escolas, do comércio, consultórios médicos, o resto da sua família, o cinema e uma parte considerável dos seus amigos e da vida social "funciona" durante o dia. Esse é o aspecto problemático do ponto de vista psicológico da vida em 24 horas. Para que a sociedade contemporânea ofereça serviços ininterruptos é necessário que uma camada respeitável da população seja privada de sono e de vida social.
Quem trabalha a noite sofre com os horários sociais padrão da sociedade humana, além de sofrer com os problemas físicos advindos da inversão temporal que é trabalhar a noite e repousar de dia. Hoje se sabe que parte dos problemas de saúde apresentados por trabalhadores noturnos ou em turnos alternantes são desencadeados e/ou agravados por fatores psicológicos. Quando se trabalha a noite ocorre um descompasso entre a vida pessoal e a vida coletiva, e felizmente ou infelizmente o ser humano é um animal gregário. Ou seja, o ser humano não sabe viver sem a companhia de seus iguais, o convívio social é parte fundamental da nossa saúde psíquica.
À noite sonhamos? Sonhamos, sonhamos e trabalhamos. Hoje cerca de 20% da população mundial trabalha em alguma atividade noturna. A sociedade de consumo demanda cada vez mais e mais serviços de 24 horas, é o preço que pagamos pelo conforto, pela velocidade da informação e pelo acúmulo de trabalho. É, não devemos nos esquecer que a necessidade de mais e mais pessoas trabalhando a noite está relacionada em parte ao fato de que mais e mais pessoas precisam estender o seu dia em função do excesso de trabalho que empurra as atividades de manutenção da vida doméstica e de lazer para horários cada vez mais tardios. Nós, seres humanos não estamos programados para viver dias/noites tão longos. Se podemos mudar isso? É possível que sim, mas a um custo muito grande. Talvez não possamos mais voltar a um tempo em que as noites eram somente para sonhar, mas talvez possamos impedir que as noites se tornem tão somente um tempo a mais para trabalhar.