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Este
caso aconteceu durante um sessão de hipnose, nível intermediário,
e está sendo publicado com autorização da paciente. Apesar da
permissão prefiro usar outro nome para preservar sua privacidade.
O
objetivo era ensinar, com um caso verdadeiro, uma das técnicas
utilizadas através da hipnose para a cura de fobias. A técnica
consiste em procurar estabelecer relações do medo ou da sensação
de medo com alguma coisa do imaginário da pessoa. A experiência clínica
com hipnose tem mostrado que, para a Mente Inconsciente, o real e o
imaginário são tomados como verdadeiros (basta lembrar das sensações
físicas que temos diante de um pesadelo, por exemplo).
A
sensação de desconforto diante da simples imaginação da presença
do objeto fobígeno é muito intensa. Se quisermos ajudar uma pessoa
que vive esta experiência temos de dissociá-la da sensação, isto
é, afastá-la o mais longe possível da lembrança da sensação.
Uma
estratégia é a utilização da imaginação, como demonstraremos a
seguir. No início, um diálogo para estabelecer o estado atual e o
objetivo em forma de imagens. Depois a sessão propriamente dita e
finalmente uma conclusão.
Terapeuta
; Maria, quando você pensa no seu medo você o relaciona com que? Há
alguma crença envolvida? Surge alguma lembrança relacionada à
origem?
Maria: Já tentei analisar e acho ridículo. Já pensei: não vou
deixar de dormir por isto, vou me cobrir bem e vou dormir, mas não
tem jeito.
(Como lidar com o imaginário não é habitual para a maioria das
pessoas, é comum, no início, se prenderem em situações
objetivas).
Terapeuta: Maria, o que te lembra uma lagartixa? Que sensação você
sente?
Maria: Ela é fria, é algo que gruda. Acho que em alguma época da
minha vida fui castigada de tal forma que devo ter ficado no meio de
um monte de taruíras e assim, ficou na minha mente o medo de taruíra.
Terapeuta: Podemos usar isso, mesmo que não tenha sido real?
Maria: sim
Terapeuta : Eu quero te pedir, então, que você faça uma
analogia...
Maria: Não é uma cobra verde, não (antes eu tinha contado um caso
semelhante em que a pessoa disse que a lagartixa podia ser uma cobra
verde, daí seu comentário, rindo). Então ela disse: É minha mãe.
Quando
iniciei a intervenção terapêutica pretendia trabalhar com uma
analogia do problema e uma analogia da solução. Então, quando ela
me relatou uma lembrança tomei-a como a analogia do problema,
enquanto que a imagem da mãe foi tomada como analogia da solução.
A linguagem do inconsciente é, quase sempre, incompreensível e
deve ser tomada do jeito que surge, pois a solução deve brotar de
mudanças no inconsciente da própria pessoa.
Em
seguida foi realizada uma indução simples de transe hipnótico . A
estratégia preferida é a de dissociação. Exemplo: enquanto você
procura um lugar seguro e tranqüilo e se sente segura,
protegidamente... sua Mente inconsciente pode assumir a direção e
procurar os recursos para substituir, a partir desta evidência
atual o antigo pelo novo, talvez buscando aquele momento inicial,
quem sabe, silenciosamente, para que sua sabedoria interior leve os
recursos necessários para a substituição mais saudável...
Gradativamente
fui percebendo que o braço direito de Maria ia se erguendo
suavemente e apontando para frente enquanto chorava visivelmente
emocionada com alguma lembrança que surgiu. Depois de um tempo de
silêncio fui sugerindo que sua mente procurasse a solução mais
adequada e que se precisasse da presença da mãe... Neste momento
Maria gesticulou energicamente com a cabeça dizendo não.
Há
momentos em que a pessoa vive emoções e necessita, talvez, de
falar. Perguntei se gostaria de falar sobre o que estava vivenciando
dando-lhe liberdade para guardar para si se fosse seu desejo. Sempre
sugerindo conforto e proteção. A sabedoria interior pode reunir
todos os recursos para que a pessoa possa se sentir plenamente saudável.
Quando a emoção foi se modificando, uma sensação de bem estar
foi transparecendo em sua fisionomia e no relaxamento do corpo, e
percebi que ela passava a vivenciar outro momento, e apenas
acompanhando ou tentando acompanhar esse outro momento fui me
referindo ao conforto de poder se permitir absorver as mudanças
saudáveis que estava experimentando, para que essa nova sensação
pudesse fazer parte de sua vida se realmente fosse saudável,
permitindo-lhe ter novos recursos disponíveis no presente.
CONCLUSÃO
Após
a volta do estado de transe, Maria explicou que naqueles momentos de
emoções mais intensas reviveu um episódio em que ela, com três
anos de idade havia aprendido a xingar com uma prima. Um primo
chegou e falou: “como a branquela está bonita” ela se irritou e
o xingou. A mãe pegou um jornal velho, enrolou-o, colocou fogo e se
aproximou dela ameaçando queimar-lhe a língua.
Lembra-se,
também, que sempre achou sua mãe uma branquela fria e grudenta. Ao
tentar acessar com seu imaginário uma possível solução, o que
lhe ocorreu foi exatamente a origem do problema: Citando Freud, a
fobia é uma conseqüência de um deslocamento. No caso, mãe fria e
grudenta igual à lagartixa. Por isto não quis a ajuda da mãe no
momento em que vivenciava uma regressão: ela era o problema e não
a solução.
Um
mês depois nos vimos de novo e ela nos conta que foi com o marido
num hotel, viu uma lagartixa no teto e dormiu tranqüilamente sem se
importar com ela. No dia seguinte o marido disse que tinha visto a
lagartixa, mas para não assustá-la não comentou. E ela rindo
disse: “eu também vi e não me importei com ela”.
Não
são raros os casos de fobia resolvidos rapidamente sob hipnose,
sempre se resolve em poucas sessões.
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